
O homem andou pelo corredor em direção a máquina de votos enquanto lembrava da promessa feita. Sabia que não poderia cumpri-la, sobretudo para aquele político menos poderoso. Não que não pudesse, ele apenas não era um homem corajoso. Com o dedo na máquina, pensou por 2 segundos contados. Não votaria mais em Tião Vianna, do PT. Apertou a segunda opção: José Sarney. Mais um escravo do jogo político. Levantou a cabeça e voltou ao seu lugar. Dois tapinhas no ombro lhe irritaram mais do que o costume.
Esta semana, o londrino The Economist publicou uma reportagem intitulada Onde dinossauros ainda dominam: uma vitória para o semi-feudalismo sobre o atual presidente do Senado José Sarney. Nas linhas da reportagem, Sarney foi presidente por acidente, controlar o estado e as mídias do Maranhão por mais de 40 anos e usa o povo maranhense para chegar a Brasília. Em troca, ele entrega um estado decrépito para o eleitorado e uma taxa de mortalidade infantil de 39%. Nada que escape ao conhecimento dos nossos jornalistas brasileiros.
Não se pode negar que é graças a políticos do início do texto que Sarney se elegeu com folga. Como esse, teve outros. Quatro ou cinco no mínimo, tanto que a base de Tião Vianna (PT) acusou traição. É desta forma que políticos retrógrados continuam eleitos para altos cargos em Brasília. Bem disse a matéria do Economist: “Time to retire, one might think”.
O mais triste para a nação brasileira e a nossa categoria, é constatar que precisou um veículo inglês botar a boca no trombone e relembrar tudo o que há de podre no reino da família Sarney.
Com a volta do dinossauro na presidência do Senado e de Michel Temer na presidência da Câmara, políticos como Fernando Collor de Melo e Orestes Quércia, o ex-prefeito corrupto de São Paulo, voltam mais fortes do que deveriam. Parece a ilha perdida daquele filme, o Jurassic Park.
Nos últimos anos, Sarney mandou fechar diversos sites de jornalistas maranhenses que tomam alguma atitude contra o semi-feudalismo. Na matéria do Economist.com, uma imagem de Lula e Sarney ilustra a reportagem com uma irônica legenda: “Estranhos aliados”.
Falando em reinos, um exemplo da falta de escrúpulos para exercer a política é o recente caso do corregedor e 2º vice-presidente da Câmara Edmar Moreira (DEM), que construiu um castelo avaliado em R$ 25 milhões em São João de Nepomuceno (MG). Com o escândalo na boca do povo, obviamente Moreira perdeu os dois cargos. O deputado alega desenvolvimento do turismo na região, mas quem se aproxima do castelo para tirar fotos é afastado. Os habitantes da região se recusam a falar sobre o caso.
Além de inúmeros fatos pitorescos sobre o tal castelo, um deles é a foto da esposa nos sabonetes, o advogado exonerado da PM por abuso de poder é acusado de dever até R$ 1 milhão ao INSS. Além disso, não pagou o FGTS de seus empregados na sua empresa de segurança particular.
O caso veio à tona novamente só agora. Mas o trecho a seguir é de uma matéria da Veja do dia 25/08/1999. Olha isso:
“Moreira tem dois mandatos como deputado federal, o primeiro pelo PRN de Fernando Collor e o segundo pelo PPB de Paulo Maluf. Apresentou cinco projetos, um deles propondo aumento de salário aos policiais militares. Além do castelo, é dono de um apartamento tríplex no bairro de Higienópolis, em São Paulo, onde mora, de uma mansão no Guarujá, no litoral paulista, de outra em Coronel Pacheco, terra natal de Júlia, e de vários imóveis em Juiz de Fora. Nenhum dos imóveis, porém, é motivo de tanto orgulho e zelo por parte do deputado quanto seu castelo. O deputado não permite sequer que o fotografem. Os incautos que se aproximam para usar o monumento como pano de fundo de fotos de debutantes e noivas são expulsos das cercanias pelos seguranças e, com freqüência, têm os filmes confiscados. Quer dizer, na arquitetura o ex-PM Moreira se imagina um príncipe. No comportamento, age como coronel do sertão.”
ilustração: João Henrique Brum
Vale do Loire? Não, Minas Gerais.
http://veja.abril.com.br/250899/p_106.html
Where dinossaurs still roam: A victory for semi-feudalism
http://www.economist.com/world/americas/displaystory.cfm?story_id=13062220
Corregedor da Câmara tem castelo avaliado em R$ 25 milhões.http://video.globo.com/Videos/Player/Noticias/0,,GIM961097-7823-CORREGEDOR+DA+CAMARA+TEM+CASTELO+AVALIADO+EM+R+MILHOES,00.html
Com Temer e Sarney, PMDB assume comando de Câmara e Senado
http://g1.globo.com/Noticias/Politica/0,,MUL983404-5601,00.html
